» "Sob a Luz Da Fama" - (Center Stage) - 2000. 
Com a tarefa de escrever este texto, coloquei "Sob a Luz da Fama" em meu aparelho de DVD, ciente de que sempre elogio esse filme, de que é dos mais requisitados pelos amantes de ballet da última década (amantes esses que elegem como segunda opção "Billy Elliot") e que vi muitos anos e filmes atrás. Tenho medo, muito medo da magia se perder. Uma coisa é você ver um filme e se surpreender (como eu na primeira vez que o assisti), outra é ciente de tudo isso não saber o que sentirei.
O filme começa morno, nada espalhafatoso como as últimas produções de hip-hop-ballet que assisti. O medo aumenta mas em contrapartida começo a notar coisas que não lembrava mais. Somos humanos, esquecemos dos detalhes. E são esses detalhes que chamam minha atenção agora. O carisma de uma bailarina se sobrepondo a sua técnica de dança, o esforço para amaciar as sapatilhas e proteger os dedos dos pés, a descoberta de quem é gay ou hetero entre os bailarinos, os problemas enfrentados como bulimia e anorexia, a cobrança e transferência de objetivos que os pais fazem, a escolha de caminhos etc.

Uau, quantos detalhes. Outro filme que eu elogio muito é a versão japonesa de "Dança Comigo?" por ser exatamente cheio dos detalhes que eu como amante da dança de salão conheço tão bem. Um filme de dança não pode ficar só na dança. Tem que explorar exatamente esses detalhes e mesmo que inconscientemente, garanto que a maioria que elogia esse filme o faz em grande parte em função desses detalhes. Recordo de outro filme de dança de salão cheio de detalhes, o "Baila Comigo - Marilyn Hotchkiss Ballroom Dancing and Charming School" que adorei e os verdadeiros amantes da dança de salão também. É verdade que teve muita gente, até da mídia especializada, que não gostou por quase nao ter cenas de dança explícita. Sinceramente, nada a falar a respeito... Mas, um filme não precisa ter grandes apresentações de dança para ser muito bom e ser explicitamente de dança, ainda mais dança de salão que é "gente como a gente".

"Sob a Luz Da Fama" é assim, tem muitos detalhes que quem pratica ballet percebe com carinho, saudade ou consternação, e quem não pratica vê e aprende como é esse ambiente. Calma pessoal, não se assustem, "Sob a Luz Da Fama" é repleto de ótimas cenas do melhor ballet. Coreografias de gente do calibre de George Balanchine, fielmente encenadas, corpo de baile profissional, atrizes principais com anos de prática de ballet, em especial atenção a Zoe Saldana que após esse seu primeiro filme tem crescido no cenário cinematográfico e fez recentemente o papel da Ten. Uhura no novo Star Trek. E, claro, os bailarinos profissionais como Ethan Stiefel (que realmente já foi primeiro bailarino do American Ballet Academy) e Sascha Radestsky. Bailarinos que não fazem feio se colocados ao lado de Baryshnikov ou Nureyev. Isso tudo somado com apresentações lindas e bem produzidas, ao som de Dom Quixote, Lago dos Cisnes ou Quebra-nozes, faz com que qualquer um lembre desse filme para sempre, mesmo que esqueça os detalhes.
Mas não podia faltar dança de salão, desde a cena rápida do canastrão Peter Gallagher, até a salsa (tinha que ser) dançada num clube noturno pelos alunos da escola de dança. Só me dei conta da idade do filme quando vi as Torres Gêmeas no cenário de Nova York, é um filme pré 11 de setembro, lançado em 2000.
Eu sempre gosto de identificar em um filme de dança sua mensagem principal e sem dúvida em "Sob a Luz Da Fama" essa mensagem é a escolha do seu caminho na dança e na vida. Muitas vezes, o caminho que temos que seguir não é o que inicialmente gostaríamos, mas temos que ter em mente que a escolha tem que ser com o coração, pois quando fazemos algo com gosto com certeza a vida sorri. Embora saibamos que na vida real nem sempre isso ocorre, o filme nos mostra que geralmente é o melhor caminho.
Tarefa cumprida, muito feliz, recoloco na prateleira dos filmes de dança de primeira linha, ao lado dos que citei neste texto.

Rio de Janeiro, 16/11/2009
Marco Antonio Perna
www.pluhma.com/blog
www.dancadesalao.com/agenda

Artigo publicado em Dez/2009 na edição 26 do jornal Falando de Dança, do Rio de Janeiro.

Veja a página do filme clicando aqui.


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